sábado, 7 de julho de 2012

Outside

Fugiu do retiro psiquiátrico quando dona Carmem abriu os portões pra jogar o lixo. O vestido agarrou no latão, atrasando o retorno da monitora.
Saiu saltitante feito um animal descontrolado. Molhou os pés na lagoa, assobiou Mozart para um casal de namorados, deu tchau para uma criança e foi correspondido.
Na cidade viu motoristas se xingando, pessoas correndo, e nos jornais homens se matando. Deu risada. Parou na Cantina da Esquina e pediu um café. Estava bem arrumado pelas meninas do turno anterior. Camisa abotoada corretamente, sapato de camurça sem cadarço e calça marrom. Tomou o café vagarosamente, fingiu ler os jornais e pareceu interessado olhando pra TV. Estava ligada, mas é como se não estivesse.
Saiu, comprou livros, de Erasmo à Heminghway. Foi andando pelas ruas, se equilibrando em meios fios, até chegar na praça. Com frio, se encolheu enquanto lia. Não entendeu muita coisa do tal que falava de loucura. Andou mais.
Chegou aos limites da cidade. Pediu carona. Ganhou. Nunca mais se viu.
Foi viver a sua loucura, onde se encontram a maior parte daqueles que são como ele: do lado de fora.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ponteiros

A camisa dele era uma daquelas listradas, entre o social e o esporte fino. Ela usava uma regata vermelha por cima de uma camiseta azul. Adora criar estilos. Estavam juntos havia alguns minutos, talvez uns 20. Ele queria se aproximar do cabelo dela, que cheirava maravilhosamente. Ela queria sentir a pele aquecida do braço dele, em uma sensação de segurança. Eles estavam conectados.
Ele logo precisava ir embora. A passagem já estava no bolso direito da calça, e ela preferia não se lembrar. Ainda haviam, sei lá, 15 minutos para ficarem ali, sentados naquele banco de pedra da rodoviária. Ele voltaria para sua rotina na cidade maior, e ela apenas iria seguir a dela na cidade pequena. O tempo voava tão depressa que parecia que pessoas adiantavam o relógio de algum lugar.
Eles não sabiam se estavam apaixonados. A única certeza de ambos era que estavam onde queriam estar. E que aquelas poucas centenas de segundos seria todo o motivo da saudade na hora seguinte.
Ele sempre prometeu voltar, e ele sempre volta. Ela promete que vai esperar, e sempre não vê a hora de chegar ao fim toda espera que conta, riscando os dias no calendário, na esperança de dormir e ver os dias correrem feito pássaros.
Cada instante longe do complemento é um dia lento, e cada minuto ao lado do que se completa o vento leva. E a vida segue sendo um apanhado de momentos, sonhos, e experiências rotineiras. Nem sempre se chora e nem sempre se pode sorrir. Mas o mais importante é sempre estar disposto a valorizar a oportunidade de poder esperar por alguém ou pelo sonho que um dia vem.